Entre
muitas entrevistas, a que foi publicada pelo jornal Correio
da Bahia em Abril de 2005, retrata a trajetória
de Maharaja, um homem que viajou pelo mundo se preparando,
conhecendo o sofrimento da humanidade na própria
carne e levantando sempre a bandeira da vitória.
(Matéria
no Jornal Correio da Bahia ~ Domingo, 3 de Abril de 2005)
Saga de quiromante
por
Adriana Jacob

O
argentino Maharaja, 50 anos, revela os elos místicos
entre a religiosidade da Índia e do Brasil
O carro de boi parou numa cidadezinha a
uns 100km de Calcutá. Um grupinho de curiosos se
juntou pra espiar os quatro monges - dois argentinos,
um hindu e um holandês - enquanto tiravam de cima
da carroça um panelão, uma espécie
de fogão e alguns instrumentos musicais indianos.
Metido entre as peles moreno-escuras inconfundíveis
dos indianos, um branquinho cabeludão e barbudo
ficou ouvindo os mantras entoados pelos quatro homens
que levavam alimentos para o corpo e o espírito:
tocavam citara, harmonium e mridanga, enquanto serviam
para a comunidade o sopão que haviam acabado de
preparar com alimentos doados por produtores da região.
Depois, foi falar com os quatro: "Me chamo George
Harrison e estou com um projeto de unir música
indiana ao rock e ao blues". E engataram a conversa.
Considerado o mais místico dos Beatles, Harrison
foi um dos capítulos da viagem do psicólogo,
guitarrista e especialista em psicoquirologia Maharaja
(ele prefere não revelar o nome completo), que
depois daquele encontro viveu três meses na fazenda
auto-sustentável mantida pelo ex-Beatle nos arredores
de Londres. "Lá, moravam umas 120 pessoas.
Criavam animais, plantavam, tinha uma cozinha enorme,
um templo e um estúdio de gravação",
descreve. A partir das experimentações musicais,
George lançou em 1981 o disco Hari-Harrison, mas
"quando o frio começou a chegar à Inglaterra,
voltei para a Índia", conta Maharaja, um daqueles
quatro monges.
Argentino de nascimento "por acaso", Maharaja
adotou Salvador como moradia durante cinco anos. Para
ele, a energia existente na Bahia guarda semelhança
com a que encontrou em terras indianas. E olha que ele
conheceu bem aquele país nos oito anos em que ficou
por lá. O velho carro de boi rodou a Índia
de Norte a Sul, de Leste a Oeste, até ser substituído
pelo ônibus doado por George Harrison. "Vivemos
em quase todos os mosteiros do país, independentemente
de sua religião, porque lá você não
tem uma ligação com os templos, e sim com
Deus", explica. O projeto social iniciado pelos quatro
monges existe até hoje, agora realizado por outros
monges.
Ligações ancestrais
"Aqui na Bahia, a cultura afro-brasileira é
muito forte. E a África tem uma ligação
forte com a Índia. Mahatma Gandhi, por exemplo,
viveu grande parte de sua vida na África. Em Salvador,
que eu considero uma cidade muito parecida com Bombaim,
existe uma base cultural espiritualista ligada a essa
herança afro-brasileira", afirma.
Essa relação com a espiritualidade teve
início muito cedo na vida de Maharaja. Aos 5 anos,
assustava sem querer a mãe com as previsões
que fazia. "Aquilo se tornou quase uma maldição
para mim. Minha mãe dizia: não fala essas
coisas, meu filho". Aos 9, começou a estudar
música e "coisas espirituais". Leu sobre
yoga, esoterismo, a Bíblia, e teve contato com
grupos hindus, judeus, neo-cristãos, "estudiosos
que não aceitassem fanaticamente uma religião".
Acabou cursando psicologia em Buenos Aires e fazendo um
curso de especialização em religiões
comparadas na Universidade de Gainsville, na Flórida,
Estados Unidos. "Aí pirei e fui pra Índia,
em busca da cultura oriental: não estava acreditando
numa cultura que valoriza a tecnologia, o shopping e o
rolex, e não valoriza a alma".
Nesse tempo, Maharaja já estudava duas ciências
desenvolvidas há 4.500 anos pelos médicos
ayurvédicos: a quiromancia e a quirologia. "Através
da leitura das mãos, eles viram que existem signos
comuns a todo mundo, mas com diferenças que dependem
das vivências de cada um, podendo revelar seu passado,
presente e futuro", explica. "No século
passado, se descobriu que cada um possui impressões
digitais únicas, e alguns estudos já revelam
similaridade entre as digitais de pessoas com doenças
do coração". Ele compara as linhas
encontradas na palma da mão, singulares para cada
ser humano, com seu código genético, igualmente
único. "Só que o DNA está sendo
descoberto agora, enquanto a quirologia já é
estudada há 4.500 anos. Encontrei inclusive livros
de estudo que utilizam a pele da mão humana",
revela.
Foi a partir desse conhecimento milenar que Maharaja resolveu
unir a quirologia hindu à psicologia, criando a
psicoquirologia. "Dessa forma, você deixa de
considerar o destino como fator determinante ou condenatório,
através da psicoquirologia você tem como
mudar", sintetiza. Ele cita o exemplo de uma mulher
que o visitou com câncer nos olhos em estado terminal.
Só que em sua mão, o místico não
viu qualquer problema de saúde, o único
distúrbio estava na linha do coração.
Foi então que ela revelou que apanhava do marido
havia muitos anos, mas sempre ia chorar no banheiro escondida
e ninguém nunca tinha visto suas lágrimas.
"Será que esse problema nos olhos não
é uma forma de seu inconsciente mostrar que quer
expor essa dor?", questionou. Quatro semanas depois,
a doença começava a regredir. Para Maharaja,
a explicação é simples: a partir
do momento em que o indivíduo toma consciência
de seu inconsciente, surge a cura. "Por isso, saber
é melhor do que não saber, o conhecimento
cura", afirma.
Lendo as mãos
Estudioso da arte de ler as mãos, em suas muitas
viagens Maharaja já foi consultado por gente de
todo tipo, desde anônimos a chefes de estado de
outros países e artistas. Também realizou
experiências musicais e místicas com Gilberto
Gil (com quem tocou em 1986, no Anhembi), Raul Seixas
e Paulo Coelho.
Recentemente, depois de se mudar da capital baiana para
São Paulo, foi entrevistado no programa do Jô
Soares, da Rede Globo, e passou a receber chamados de
todas as partes do país, "desde habitantes
da menor cidade do Amazonas, até políticos
de Brasília", diz, sem revelar nomes. Mesmo
estando por hora ancorado na capital paulista, as viagens
desse argentino de meio século não têm
data marcada para acabar. "Pretendo continuar viajando.
Em todos os sentidos", diz ele, que pode ser contatado
através do telefone (011) 8559-1224.
OUTRAS
ENTREVISTAS
